Kerygma - Revista Eletrônica
 
ISSN - 1809-2454
 

Água tinta de vermelho

Renato Groger*

"Isto é o meu sangue... derramado por muitos" (Mt 26:28). As palavras ecoavam tão solenes quanto enigmáticas na mente de João, quando lentamente levou o cálice aos lábios. Sentia o coração apertado, dividindo com os companheiros pressentimentos mudos que não compreendia. No rosto do Senhor projetava-se a sombra dos eventos que naquela mesma noite teriam início. Ele antevia Seus últimos momentos e a indizível consternação que se abateria sobre os discípulos, os quais só entenderiam plenamente o plano de Deus dias mais tarde.

No cenáculo, João estava recostado bem próximo ao Salvador. Mais tarde, o discípulo "que Jesus amava" seria o único dos doze a acompanhar o querido Amigo até o fim. Durante toda a noite testemunhou as palavras rudes e os maus-tratos a que o Filho de Deus foi submetido. Os açoites que pela manhã feriram o corpo do Mestre também dilaceraram o coração do discípulo.

Aos pés da cruz em que Cristo foi significativamente pendurado entre o Céu e a Terra, com a vista embaçada pelas lágrimas, João assistiu a Seus derradeiros sofrimentos. Sequer podia imaginar a verdadeira dimensão da dor que se abatia sobre Aquele que levou sobre Si "a iniqüidade de nós todos" (Is 53:6).

Muitas coisas que aconteceram antes do pôr-do-sol daquela singular sexta-feira marcaram para sempre as recordações de João: as últimas palavras do ofegante Mestre, a escuridão sobrenatural que escondeu dos olhos humanos Sua derradeira humilhação, o forte brado que antecipou o momento em que o sono da morte Lhe interrompeu a agonia, o violento tremor de terra a sacudir os expectadores da cena cruel, e, finalmente, o reconhecimento pelo comandante da execução de que Jesus, de fato, era o Filho de Deus. Ao fim de tudo isso, porém, algo em especial chamou-lhe a atenção.

Em consideração à queixa dos judeus de que a continuação da tortura no Calvário seria uma profanação do sábado prestes a iniciar-se, Pilatos ordenou que as pernas dos condenados fossem quebradas com o intuito de precipitar sua morte. O fato de Cristo expirar antes que a medida tivesse de Lhe ser aplicada foi entendido pelo evangelista como cumprimento de uma antiga profecia das Escrituras, que previa que nenhum dos ossos do Justo seria danificado (Jo 19:36, cf. Sl 34:20). A fim, porém, de certificar-se de que o condenado já não vivia, um dos soldados empunhou sua lança e perfurou o peito do Salvador. Imediatamente jorrou do ferimento água e sangue (Jo 19:34), em dois fluxos visivelmente distintos, seguidos pelos olhos espantados de João: primeiro a água, e, logo em seguida, o sangue, o qual, lá no solo, entre as pedras e a poeira do Calvário, misturou-se com a água.

Plano ilustrado

Desde as curiosas interpretações alegóricas dos chamados pais da igreja nos primeiros séculos, não têm faltado especulações ao longo de toda a era cristã acerca desse acontecimento. Nos dias atuais, o livro Crucificação de Jesus , de autoria do médico legista norte-americano Frederick Zugibe, é a mais recente incursão literária pelo tema, merecendo, inclusive, diversas aparições sensacionalistas na mídia mundial.

Embora muito se tenha escrito sobre o episódio descrito por João, foi somente nos últimos séculos que a ciência médica pôde dar testemunho da possibilidade de acúmulo de líquido no músculo que envolve o coração em certas situações traumáticas graves. A propósito disso, chama a atenção a impressiva observação feita no século XIX pela escritora Ellen G. White sobre a causa do falecimento de Jesus: "Aquele grito soltado 'com grande voz' no momento da morte, a corrente de sangue e água que Lhe fluiu do lado, demonstravam que Ele morreu pela ruptura do coração. Partiu-se-Lhe o coração pela angústia mental. Foi morto pelo pecado do mundo" ( O Desejado de Todas as Nações , pág. 772).

João, evidentemente, não tinha como saber o significado fisiológico do fato, mas a prova de que viu relevância nele é que, muitas décadas depois, ao escrever o evangelho, reforçou sua veracidade com um testemunho especial: "Aquele que o viu testificou, e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que é verdade o que diz para que também vós o creiais" (Jo 19:35). Por volta da mesma época, ou seja, no final do primeiro século, o apóstolo escreveu sua primeira carta, a mais importante das três preservadas no Novo Testamento. Não é impossível que tivesse o episódio da lança em mente quando afirmou: "Este é aquele que veio por meio da água e sangue, Jesus Cristo; não somente com água, mas com a água e com o sangue. E o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade" (1Jo 5:6).

De novo água e sangue. É notável que ambos os elementos tivessem lugar de destaque na própria mentalidade espiritual da nação israelita. Tanto a água como o sangue faziam parte fundamental do sistema de cerimônias ligado ao santuário. Do sangue é dito em Levítico 17:11: "Pois a vida da carne está no sangue, pelo que vo-lo tenho dado para fazer expiação pelas vossas vidas sobre o altar; é o sangue que faz expiação pela vida." Diversas cerimônias, principalmente aquelas ligadas ao perdão de pecados, envolviam necessariamente derramamento de sangue de animais limpos, tais como cordeiros e novilhos.

A água, como um símbolo evidente de purificação também estava presente. Quando da instituição do tabernáculo (posteriormente substituído pelo templo de Jerusalém), Deus ordenou expressamente a Moisés que mandasse confeccionar uma pia de bronze para ser colocada diante da porta da tenda sagrada. "Nela Arão e seus filhos lavarão as mãos e os pés. Sempre que entrarem na tenda da congregação, lavar-se-ão com água, para que não morram. Também quando se chegarem ao altar para ministrar, para acender a oferta queimada ao Senhor, lavarão as mãos e os pés para que não morram" (Êx 30:19-21).

Por iniciativa divina, o cerimonial ilustrava o plano da redenção do ser humano, centralizado na figura do Messias. No entanto, essa verdade permaneceu encoberta à nação judaica, que emaranhou-se em meio às formalidades ritualísticas, sem atinar para as lições espirituais que elas encerravam. Falhou em sua missão de iluminar o mundo. Lamentavelmente, poucos entenderam e aceitaram que a revelação de Jesus Cristo em Sua primeira vinda começou a cumprir perfeitamente aquilo que as cerimônias apontavam em seus diversos detalhes. Foi desse pequeno número de fiéis que Deus começou a edificar a igreja cristã.

Gnosticismo

Todos os escritos do apóstolo João contidos no Novo Testamento foram produzidos no final do primeiro século. Seu evangelho e suas cartas deram testemunho da obra salvífica de Cristo num momento delicado da igreja. Uma das primeiras e mais devastadoras heresias que surgiram contra a Verdade, o gnosticismo, ganhava nesse período cada vez mais simpatizantes entre os cristãos. De acordo com essa filosofia, a divindade, o Messias, só havia entrado no homem Jesus por ocasião do seu batismo, deixando-o pouco antes de sua morte na cruz.

João combateu com energia essa idéia, deixando claro que ambas as naturezas de Cristo, tanto a humanidade quanto a divindade, sempre estiveram unidas em toda a vida e ministério do Salvador, inclusive na Sua morte. Os primeiros versos do evangelho joanino constituem a mais explícita declaração bíblica da divindade e encarnação de Cristo. Ao longo da narrativa, as profundas, mas inconfundíveis declarações de Jesus acerca de Sua pessoa preparam a mente do leitor para as cenas finais. O divino ser, o "Eu sou" (Jo 8:24, 58; 13:19), tinha que morrer para assegurar a salvação de todo aquele que nEle crer. A lancetada em Seu coração não deixou margem para dúvidas: o Messias não sobreviveu à crucifixão, residindo justamente aí a Sua vitória.

A afirmação "(Ele) veio" da passagem já mencionada da primeira carta de João, constitui outra proclamação da realidade da encarnação de Jesus: embora Cristo fosse Deus, Ele se submeteu à humilhação. Desceu do Céu ("veio"), habitou entre nós, foi literalmente um de nós.

"Veio por meio da água." Esta é uma referência do apóstolo ao batismo do Mestre, deixando claro que a divindade já se encontrava presente nEle. Naquele momento a voz divina do Pai, vinda do Céu, declarou Jesus Seu Filho, comissionando-O para o ministério terrestre. É importante frisar que Cristo, livre desde sua concepção da mácula do pecado (Hb 4:15; 7:26; 9:14), não precisava de batismo, um símbolo da morte para o pecado e do novo nascimento no Espírito. Entretanto, sendo Ele sem pecado, deu-nos o exemplo: nós carecemos de justificação. Se, por um lado, a ordenança do batismo é essencial como testemunho público da entrega a Cristo, do início da nova vida nEle, por outro nunca devemos nos esquecer de que a purificação e o aperfeiçoamento por meio da comunicação da graça pelo Espírito Santo, é obra diária.

"Veio por meio do sangue." A vinda messiânica de Jesus foi testemunhada publicamente não só pelo Seu batismo, mas principalmente por Sua morte expiatória na cruz. Essa morte está no centro de tudo o que Jesus fez porque representa a vitória em Sua obra de redenção do homem. A morte de Jesus faz dEle muito mais que simplesmente nosso Mestre: Ele é nosso Substituto . Em Sua morte, Cristo ganhou a nossa vida.

Então o verso introduz, em sua parte final, a obra do Espírito Santo. O ministério salvífico de Jesus só faz sentido para a humanidade porque o Espírito Santo grava nas mentes a importância desse ministério. Ele é a Verdade, disse João, assim como Jesus afirmara de Si mesmo ser a Verdade. Partilhando da divindade do Filho de Deus, o papel do Espírito é convencer o coração a render-se ao amor manifestado na cruz. Ele exalta a pessoa de Cristo, coroando-O como rei de nossa vida e nos dá poder para ser submissos ao Grande Rei. Que esplendoroso resumo da obra da salvação em apenas um versículo!

Conclusão

O fardo do pecado é por demais pesado para que qualquer ser humano consiga levá-lo sozinho. Separamo-nos de Deus, mas Ele não nos abandonou: veio pessoalmente nos buscar para estarmos para sempre ao Seu lado. O poderoso Senhor, criador de mundos, assumiu a dívida de pecado que cabia a cada um de nós, quitando-a completamente. Se não quisermos, não precisamos mais enfrentar o castigo, afinal.

Nos caminhos da vida, o coração do ser humano muitas vezes se apresenta tão sujo quanto o chão onde Jesus foi levantado naquela sexta-feira. A boa notícia é que nele uma cruz pode ser espiritualmente erguida: o Salvador crucificado, vertendo de Seu peito sangue e água, é a prova eterna da nossa segunda chance, conquistada pelo sofrimento. A parte que nos cabe, tão mínima em relação ao que foi feito no Calvário, é simplesmente aceitarmos o perdão de Cristo e o poder regenerador do Espírito Santo em nossa vida diária. Procedendo assim, estaremos verdadeiramente permitindo que a água novamente se misture com o sangue... desta vez no solo de nosso coração.

*Renato Groger é jornalista e estudante do 4º ano de teologia no Unasp,campus Engenheiro Coelho


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