Kerygma - Revista Eletrônica
 
ISSN - 1809-2454
Editorial

Desafios do cristianismo no mundo contemporâneo

José Miranda Rocha, D.Min.
Editor-associado

Uma das lições mais evidentes da história da religião cristã é que nunca houve época sem desafios para a Igreja, como comunidade de fé. Desde os primeiros embates da fé cristã em sua infância histórica dentro do mundo judaico, a história do cristianismo se apresenta como uma luta da verdadeira religião procurando alcançar um mundo hostil. E se o início é marcado por perseguição e muitas mortes contra aqueles que se apresentavam como comprometidas testemunhas de Cristo, o final não promete menos do que foi registrado no alvorecer cristão.

Nas palavras de Paulo a Timóteo, a certeza que devemos ter em mente como cristãos é que "nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis". (II Tim. 3:1). Nesse contexto, o Apóstolo faz uma exortação ao jovem pastor para que permaneça "naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste". (verso 14). No universo das nações cristãs ocidentais vivemos hoje um tempo que parece contradizer as palavras de Paulo, pois tudo entre esses povos tem a aparência de uma calmaria religiosa, sem sinais de ventos persecutórios, um tempo de tolerância jamais visto.

Contudo, a despeito da ausência da espada e da prisão, o cristianismo continua sendo o alvo preferencial de outras forças alinhadas contra a sua existência. Se a espada está em descanso, a pena e a imprensa podem ser apontadas hoje como dois grandes instrumentos de perseguição contra a religião de Cristo. Escritores e editores formam uma confederação do mal alinhados para desferir golpes mortais contra a doutrina cristã, com propósito explícito ou encoberto, mas sempre com o objetivo de negar e confundir a verdade sobre Deus, enquanto Criador e Redentor.

Friedrich Wilhelm Nietzsche, nascido a 15 de outubro de 1844 em Röcken, localidade próxima a Leipzig, na Alemanha, exemplifica bem o grupo de escritores que se alinham como inimigos de Cristo e Sua Igreja. Sua famosa declaração sobre o que pensavam sobre Deus resume sua linha de pensamento filosófico conhecida como a negação de Deus e da fé cristã: "Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo." ( ver www.mundodosfilosofos.com.br/nietzsche.htm . Acesso no dia 20/04/2008). O artigo de Alberto Tasso, estudante do curso de teologia, "A ética na filosofia de Nietzsche" é um estudo sobre as duas cosmovisões - a de Nietzsche e a de Cristo - através do qual o autor questiona qual preenche melhor as exigências ético-morais do ser humano.

Nem sempre, porém, o ataque contra a religião de Cristo vem em tons abertos, como aquele representado por Friedrich Wilhelm Nietzsche . Às vezes o ataque vem de cristãos comprometidos e aparecem disfarçados e tão simpáticos que parecem mais uma promoção. Em seu artigo, "O Crescimento da Igreja Através dos Séculos: Análise da História e dos Aspectos Positivos e Negativos", o Dr. Érico Tadeu Xavier destaca o perigo que a ênfase numérica pode trazer ao crescimento da Igreja Cristã, particularmente a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

A despeito das boas intenções de seu pai, a escola de Crescimento da Igreja, fundamentada na tese de Donald McGavran, representa, quando observada em gênese, um sério risco à saúde da Igreja. Em seu primeiro livro sobre o tema sobre Crescimento da Igreja, The Bridges of God: AStudy in the Strategy of Missions , McGavran trabalha com quatro áreas capitais para promover o crescimento do cristianismo no mundo não cristão: Área teológica, onde o seu ensino é que a evangelização estará incompleta até que uma pessoa venha a ser um discípulo responsável da igreja como o corpo de Cristo. Na discussão da teologia da evangelização, McGavran destaca o conceito de crescimento numérico pelo qual deve ser medido o evangelismo eficiente e eficaz.

Na área ética, McGavran usa o termo responsabilidade como a chave para identificar o genuíno discípulo que prega o evangelho com o alvo de alcançar resultados medidos pelo número de pessoas que tomam decisões ao lado de Cristo. Ao tratar especificamente da área missiológica, ele faz a leitura do ministério de Cristo como Alguém que procurava alcançar decisões coletivas, em sua maioria. A este fenômeno ele chamou de "movimento do povo". J. Waskom Pickett chamou o mesmo fenômeno de "movimento de massas". McGavran notou que são mais eficientes os evangelistas que procuram alcançar pessoas da mesma classe, raça, família, tribo, vila e ocupação. Este conceito foi o embrião do princípio das unidades homogêneas.

Há contudo um conceito de McGavran que põe em risco a sobrevivência da Igreja. É o que trata da área de procedimento evangelístico. Em princípio, o referido autor parece estar certo ao dizer que a tarefa da igreja é disciplinar ou discipular, trazendo os não crentes a um compromisso com Cristo e a um companheirismo ativo com a igreja. Mas no desdobramento deste conceito de aplicação final da Grande Comissão, ele afirmou que "discipular" é um estado distinto e separado do passo de "ensinando-lhes todas as coisas", passo este que ele chamou de "aperfeiçoar". Com isso, McGavran iniciou o movimento de crescimento apenas numérico da igreja, deixando de considerar o preparo sério dos que são candidatos ao batismo.

Para os pais e pastores cristãos, o desafio surge com o rosto dos filhos e jovens que rejeitam a fé cristã e expressam sua posição mediante atitudes de alienação ou rebeldia contra as normas da igreja. O artigo assinado pelo Dr. Renato Stencel trata dessa séria situação que ataca o cristianismo e da qual não escapa nenhuma denominação. Seu foco é sobre "Os Desafios da Alienação da Juventude ASD", com o objetivo de encontrar respostas para os questionamentos levantados por este segmento da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Embora alguns jovens encontrem o caminho de volta e se restabeleçam na vivência da fé ensinada e vivida por seus pais, muitos se tornam alienados para sempre da Igreja.

A vinculação histórica e teológica entre cristianismo e evangelização é o tema do estudo do Dr. José Carlos Ramos. Para o autor, evangelismo, como proposta salvífica, é a atividade que respeita o significado pleno do cristianismo, o que implica no proclamar as boas novas de salvação em Jesus Cristo, com base na exposição doutrinária da Palavra de Deus. Há coerência na metodologia de pregação fundamentada na exposição da doutrina quando lembramos as palavras do próprio Cristo, registradas em João 7:17: "Se alguém quiser fazer a vontade dele [do Pai], conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se falo por mim mesmo".

Estes são alguns dos artigos que formam o conteúdo da presente edição da Kerigma disponibilizada aos nossos leitores. Ainda há outros materiais publicados com temas relevantes disponibilizados como resumos de TCC, os quais se apresentam como motivos para uma boa leitura ou subsídios de pesquisa para produção acadêmica.

Cordialmente, José Miranda Rocha, D.Min

Coordenador Acadêmico do Curso de Teologia do UNASP-EC


 

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